CONTO – Assassinato nas Ilhas Botinas

Sinopse: um aventureiro viaja com os amigos para uma ilha deserta. Ao se afastar do barco, é abandonado pelo grupo e precisa sobreviver ao lado do cadáver de uma mulher.


ASSASSINATO NAS ILHAS BOTINAS

Texto fictício

Durante a madrugada, uma última consulta a um site de meteorologia confirmava um sábado de Sol e forte calor. Um convite natural para Oddaner pôr em prática uma de suas paixões e rumar com seus amigos a uma ilha, como já estava planejado. Foi só o tempo de fazerem as mochilas e caírem na estrada.

Do Rio de Janeiro, se dirigiram a Mangaratiba, no distrito de Conceição de Jacareí, encontrando o barqueiro Cássio assim que chegaram, já no início da manhã. O homem recebeu o grupo de 13 amigos, que foi para lá separado em três carros.

Oddaner pegou suas coisas e, junto aos demais, subiu no Angra BX. O barco era simples, mas tinha banheiro, freezer e o principal: uma churrasqueira. Enquanto um dos amigos acendia a brasa, Cássio atracou próximo às Botinas, conjunto de duas ilhas paradisíacas na Baía de Angra.

“Por favor, não se afastem muito da embarcação”, pedia o condutor ao grupo. No entanto, Oddaner já estava na água e acabou perdendo o aviso.

Ilhas Botinas. Foto real

Ilhas Botinas. Foto real

Ávido para pisar na ilha, cruzou rapidamente as águas cristalinas que separavam o barco da Botina esquerda. Deu uma volta no local e foi para o pedaço de terra à direita, onde relaxou por um tempo curtindo a visão maravilhosa do litoral do Rio de Janeiro. A paz só foi cortada pela curiosidade que surgiu quando o rapaz observou a Ilha de São João e decidiu nadar até lá. Chamou os amigos, mas acabou pulando sozinho no mar.

Em meio aos 2km que separavam as ilhas, Oddaner se dividia entre a contemplação da natureza e seu foco em chegar à nova porção de terra. Ou de pedra, que, à semelhança das rochosas Botinas, foi o que ele encontrou. O cansaço bateu forte, mas o tempo permitia descansar até restaurar as energias.

Algumas horas passaram durante sua presença em São João. A única tristeza foi a ausência de uma câmera fotográfica para registrar o local, que foi prazerosamente mapeado pelo rapaz. Exceto uma área privada, onde decidiu não invadir.

O Sol já se aproximava do adeus. Mas quem se despediu mesmo foi o Angra BX. Quando Oddaner se deu conta, o barco não estava mais nas Botinas. Mesmo assim, ele decidiu retornar ao local de origem. E refez o percurso.

Próximo às rochas da ilha direita, uma canoa. Naquele momento, era tudo o que Oddaner queria:

— Opa! Boa tarde! Nadei até a Ilha de São João e me perdi dos meus amigos. Pode me ajudar? – perguntou o explorador.

— Desculpa! Não tenho como – respondeu o indivíduo misterioso.

— Está próximo de anoitecer. Sua canoa tem dois lugares. Posso te ajudar a remar e você me ajuda me levando pro continente – disse, dando a solução.

— Tenho outro plano. Você me deixa ir embora e eu te deixo vivo – ameaçou o homem.

Oddaner pensou em partir para cima do sujeito, mas logo o avistou sacar a arma e ameaçar:

— Você vai encontrar uma mulher morta no mato onde estão os coqueiros. Eu fiz isso porque ela me deu motivo. Não me dê motivo também, cara! – exclamou, enquanto entrava na canoa e se despedia da ilha.

Sua primeira ideia foi ir aonde o homem havia dito que deixara o corpo. E logo o encontrou com visíveis sinais de esfaqueamento no pescoço. Uma bolsa foi colocada na mão direita da vítima. Dentro estavam o documento de identidade da mulher, que se chamava Allana, e um pequeno texto escrito à mão em uma folha de papel cortada pela metade.

“Faço questão de identificar a mulher que destruiu a minha vida. Foram 8 anos de casamento para descobrir que eu era feito de trouxa. Pensei em largar ela, mas eu não ia suportar viver com essa mulher rindo da minha cara. Não deu! Precisei resolver isso para tentar seguir em frente. Esse bilhete é pra ser legal com a polícia. Espero que também sejam legais se me encontrarem algum dia”, dizia a mensagem.

A adrenalina da situação tomou conta de Oddaner, que pensou em nadar novamente em direção à São João. No entanto, como não sabia se haveria alguém na área privada da ilha, decidiu que seria muito esforço pelo risco de não conseguir ajuda. Sem saber o que fazer, estava sozinho em uma ilha com o cadáver de uma mulher e sem ter como sair de lá.

Oddaner imaginou que como o dia seguinte era um domingo, seriam grandes as chances de grupos de turistas o encontrarem. Logo, tentou se acalmar e mentalizar que era preciso sobreviver apenas a uma noite, que já dava as boas-vindas com o pôr do Sol.

Pior do que a fome era a sede, vide que não havia fonte de água doce nas Botinas e o desgaste por ter nadado 4km sob forte calor piorava o quadro.

O céu estrelado ajudava a tranquilizar. Por alguns momentos, Oddaner se sentia privilegiado por estar ali. Mas logo seu corpo jogava contra. A mente lembrava do cadáver ao seu lado. O estômago roncava. A garganta secava. Era o inferno dentro do paraíso.

Outra preocupação tomou conta do explorador. Como iria explicar a mulher morta sozinha com ele na ilha? Eis que a tentativa de se acalmar mentalizando a chegada de um barco com turistas se transformou em medo de ser preso. Oddaner cogitou ocultar o cadáver, mas caiu em si e percebeu que se fizesse isso teria real participação no crime. Se apegou, então, a dois fatores: o bilhete do assassino e as claras marcas de esfaqueamento. Afinal, ele não portava nem caneta e nem faca. Mas como provar que não havia se livrado dos materiais?

Novamente, o rapaz se via atormentado. E com sede. E com fome. E começando a ter hipotermia. Afinal, após o calor da tarde, se encontrava de short e cueca molhados em meio ao ventos da noite. Pensou em tirar a roupa, mas avaliou que se fosse encontrado nu junto ao cadáver, poderia ganhar outro problema. Xingamentos não faltaram para o seu grupo de amigos por terem o abandonado naquele lugar.

Oddaner vasculhou a ilha esquerda e somente lá encontrou frutas em um dos coqueiros. Retirou os dois cocos e pensou em como poderia abri-los sem desperdiçar água. Lembrou da bolsa da Allana e decidiu retirar o forro, usando o material para envolver o coco. Bateu forte com ele em uma ponta de pedra. E repetiu o procedimento duas vezes, até que observou a água vazar. Ergueu a fruta dentro do forro que servia de peneira e catalisava o curso do líquido, botou a boca embaixo e se hidratou. Bebeu até a água secar e ter que abrir o coco manualmente para tomar o resto.

A outra fruta teve o mesmo destino. Já hidratado, Oddaner começou a comê-la quando foi interrompido por um barulho de lancha. Correu para o topo da ilha e começou a gritar e a acenar. A pequena embarcação tinha apenas o condutor. E foi ele quem abordou o perdido:

— Oddaner é você? – questionou.

— Sim! Os filhos da puta dos meus amigos me largaram aqui – respondeu, visivelmente nervoso.

O barqueiro se apresentou como Március e atracou.

— Uma pessoa do Angra BX entrou em convulsão. O Cássio precisou correr para o hospital. Você estava distante e não havia tempo para buscá-lo. O rádio deles estava com defeito. Só soubemos de você quando chegaram ao continente. Parti em direção à Ilha de São João, pois falaram que estava lá. Fiquei te procurando até agora e nada. Foi quando decidi vir aqui. Que bom que está bem! Estão todos preocupados – descreveu a situação em tom sereno, dando uma garrafa d’água ao explorador:

— Quem teve convulsão? – perguntou Oddaner.

— Foi uma menina. Não sei o nome dela, mas parece que já está legal.

— Que bom! Aqui tem o corpo de uma mulher, e não está nada legal…

Március se assustou e quis detalhes da situação. Oddaner começou a explicar enquanto levava o barqueiro em direção ao corpo.

— E foi assim que eu encontrei ela – disse, apontando para a vítima.

— Puta que pariu! Temos que ir pra delegacia – exclamou Március, perplexo.

— Se demorarmos, vão achar que fizemos parte dessa merda! – emendou o próprio barqueiro.

O corpo de Allana ficou para trás e os dois entraram na lancha em direção ao continente, levando a identidade da vítima e o bilhete do assassino. No caminho, Oddaner falava de sua experiência em uma ilha deserta ao lado de um cadáver. Március acelerava e xingava mais do que respirava.

Já na delegacia, a polícia ouviu as primeiras informações e já se mobilizou para ir às Botinas. Até que, na chegada ao local, veio uma surpresa. Não havia apenas um corpo, mas dois. Oddaner reconheceu o homem: era o assassino da mulher. Seu pescoço também havia sido perfurado com claros sinais de esfaqueamento.

O que restou da bolsa destruída para captar água dos cocos agora estava na mão do cadáver masculino, que havia deixado um novo bilhete em seu interior:

“Disse que não ia suportar viver com essa mulher rindo da minha cara. Pois é. Também não suportei viver sem ela.”


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Renaldo Souza

Um maluco de estrada que gosta de dar uma caminhada. Amante da natureza, dos churrascos e da cevada. Se Noé fez a arca, eu fiz a Barca. A Ideia, a gente arruma…

2 Comments:

  1. Cara estou perplexo com a sua imaginação. Gostei muito. Abraço.

  2. Wildson Leal Antas

    Muito bom !!!
    Gostei muito. Final surpreendente !!!

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