CONTO – O subconsciente de Alenkor

Sinopse: um homem solitário se vê deprimido e resolve acampar para refletir. Em um local isolado, encontra um velho misterioso que o faz despertar sua vontade de viver.


O SUBCONSCIENTE DE ALENKOR

Texto fictício

Alenkor era gerente de um supermercado. Negociava com fornecedores, organizava os horários de recepção de produtos, fazia a gestão dos funcionários e era o responsável por ouvir e buscar uma solução para as reclamações dos clientes. Sua rotina era acordar às 4h da manhã, tomar um banho gelado para despertar e seguir direto para o mercado, que, por ter uma padaria com porta externa, deveria estar aberto às 5h30min para vender os primeiros pães quentinhos.

Formalmente, o expediente se encerrava às 16h. Porém, o patrão bancava um extra para o gestor ficar até o fechamento, que não ocorria antes das 18h. Isso se repetia de segunda a sábado, além das eventuais convocações para “dar uma força” nos domingos.

A vida de Alenkor se resumia a trabalhar, dormir e pagar suas contas. Mal sobrava dinheiro para investir em si próprio. Até que, em uma sexta-feira, após o expediente, foi chamado para uma reunião surpresa com o patrão. Era a última.

Depois de 7 anos na empresa, saiu com a notícia da demissão e foi direto para casa. Abriu a porta e pegou uma das garrafinhas de cachaça mineira que não deixava faltar em cima da sua geladeira. Virou a primeira dose ali mesmo. Em pé. Olhando para o nada.

Alenkor se relacionava com muita gente no trabalho, mas não tinha grandes amizades. Sua mãe o abandonou na infância e seu pai ficou doente quando o rapaz começava a cursar faculdade de Administração, o que o obrigou a trancar o curso para ajudar nos cuidados. Com o falecimento se concretizando, teve que arrumar o primeiro emprego que apareceu para sobreviver e pagar as contas. Foi assim que acabou no mercado.

O desemprego fez a incerteza do futuro novamente tomar conta de sua cabeça. Mais uma dose da bebida e foi para o banho. Desta vez, de água quente. Tudo o que queria era dormir. Depois de rolar de um lado para o outro da cama por algumas horas, conseguiu.

O despertador tocou às 4h. Alenkor se levantou, foi ao banheiro e, quando começou a escovar os dentes, se lembrou de que não precisaria ter pressa. E voltou para a cama. 10h17min da manhã foi a hora que viu no celular quando acordou de vez.

Antes de se levantar, decidiu pegar suas economias para fazer uma viagem. Afinal, iria receber um bom dinheiro pelo tempo trabalhado, o que garantiria o pagamento das contas pelos próximos meses. Alenkor abriu seu armário de madeira velha, retirou sua mochila e sua barraca e separou seus materiais de camping que só costumava usar nas férias anuais para fugir dos problemas.

Ao buscar suas anotações de futuros destinos, decidiu por uma pequena cidade no litoral paranaense: Antonina. E para lá foi.

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Antonina. Foto real

Já no município, Alenkor seguiu para o distrito rural de Cacatu. Pegou a estrada em direção ao Pico Paraná e pediu ao taxista para ser abandonado em um ponto qualquer. Pagou a corrida, pegou a mochila e saiu andando mata a dentro.

Depois de caminhar por 20min, o explorador encontrou uma árvore de caule grosso e folhas verdes esmeraldas que o chamou a atenção. Decidiu que era ali que ficaria acampado durante os próximos três ou quatro dias, até pôr a cabeça no lugar. Armou sua barraca e separou os itens da mochila, que incluía 8l de água potável, biscoitos, bananas e pão de forma com salames fatiados.

O fim de tarde se aproximava e o homem começava a relaxar, olhando para o nada e pensando no tudo: era solteiro, morava sozinho, sem pais, sem amigos e não sabia o que fazer da vida. Conheceu várias mulheres, mas nunca teve namorada. Jamais pensou em se casar. Pensava apenas em ter sua própria casa, que também nunca teve.

A tranquilidade do fim da tarde foi interrompida por alguns barulhos. Alenkor imaginou que fosse uma capivara, mas era um animal de duas pernas.

Aparentando pouco mais de 70 anos, o estranho caminhava com botas, calça preta e camisa branca coberta pela sujeira e por um colete marrom. Sua cabeça apoiava um chapéu e sua mão direita segurava um facão grande o suficiente para despertar medo no visitante:

– Oi! Boa tarde! – falou Alenkor, quando o sujeito se aproximou.

– Tudo bom? O senhor mora aqui? – continuou, sem obter qualquer resposta.

O homem sumiu e fez aparecer a angústia. Alenkor não sabia se estaria seguro ali. Tentou se tranquilizar e acreditar que se tratava apenas de um caçador de passagem.

A noite chegou e o explorador deitou em sua barraca. Estava quase dormindo quando ouviu novamente os passos. Assustado, pegou a lanterna e apontou para fora, iluminando o velho misterioso:

– Quem é você? – questionou Alenkor.

– Quem eu sou é problema meu. Concentre-se na sua vida, amigo! – respondeu o homem.

– Nossa! Pelo menos dessa vez você respondeu, né…

– É o que manda a boa educação.

– Não foi o que você teve agora há pouco então – ironizou Alenkor, ainda segurando a lanterna.

– Você não queria conversar.

– Como assim?

– Olha aonde você está! Se quisesse conversar, estaria na cidade. Ou teria vindo com um grupo de amigos – encerrou o idoso, que seguiu andando.

Alenkor ficou pensando sobre o que o homem havia dito. Até que pegou no sono.

A manhã veio quente, obrigando o explorador a já acordar se hidratando. Saiu da barraca e buscou uma área baixa, onde cavou e fez suas necessidades fisiológicas para depois cobri-las com terra. Do outro lado, foi em direção a um rio. A água não era boa para beber, mas ele a usou para escovar os dentes duas vezes: antes e após o café-da-manhã, que incluiu dois pares de pão de forma com salaminho.

O objetivo de Alenkor era apenas refletir sobre a sua vida. No calor, decidiu mergulhar e relaxar dentro do rio. Saiu pouco depois das 15h para passar repelente no corpo e separar algumas lenhas na base. Não haveria necessidade de usá-las, pois seu saco de dormir era bem resistente, mas ele decidiu buscar as madeiras para se manter em atividade.

No mesmo horário do dia anterior, avistou novamente o velho misterioso. Intrigado, se apresentou ao nativo quando este se aproximou:

– Meu nome é Alenkor. Estou sozinho aqui para fugir do mundo. Mas gostaria bastante de conversar com o senhor – disse, se apresentando.

– Prazer, Alenkor! Meu nome é Selmos. A princípio, é tudo o que vou te falar sobre mim – replicou o local.

– Por quê?

–­ Porque você precisa se conhecer primeiro antes de querer conhecer alguém.

Alenkor ficou sem reação diante de uma frase tão profunda. Mas continuou o papo:

– Eu sou um cara sozinho. Não tenho nada nessa vida. Não sei nem se quero mais viver. Vim pra cá pra pensar sobre isso.

– Não sabe se quer viver? – questionou Selmos, olhando profundamente nos olhos do rapaz – Interessante – completou, abaixando a cabeça e voltando a andar.

A noite veio e Alenkor aguardou pelo retorno do velho. No entanto, adormeceu antes de vê-lo novamente.

Um forte cheiro de fumaça fez o rapaz acordar tossindo e levar um grande susto: sua barraca estava pegando fogo. Alenkor só teve tempo de puxar a mochila com as garrafas d’água e sair dali. O dano já era irreperável. Restou ficar aborrecido por perder os materiais, mas aliviado por ter conseguido escapar.

– Parabéns! – ouviu, se virando para encontrar Selmos.

– Você está maluco? Eu quase morri! Parabéns pelo o quê? – perguntou Alenkor, sem entender nada.

– Parabéns pela sua escolha!

– Que escolha, meu amigo? Minha barraca acabou de pegar fogo!

Selmos começou a gargalhar.

– Fui eu que botei o fogo, cara – falou, entre os risos.

– Porra! Você é doente? Por que você fez isso? – indagou Alenkor, ameaçando partir para cima do velho.

– Para te ajudar.

– Me ajudar? Você quase me matou, seu filho da puta!

– Você está vivo, não está? – perguntou Selmos, abrindo os braços.

– Só porque consegui sair da barraca.

– Viu como te ajudei? Há poucas horas, você não sabia se queria viver. Agora, tem certeza que quer – encerrou o velho, deixando o perplexo Alenkor para trás e seguindo sua caminhada.

Amanheceu e, após o resto da noite em claro, o explorador percebeu que precisava se acalmar, dar uma pausa na reflexão sobre a vida e sobre o que falara Selmos. Era necessário construir um novo abrigo. E foi o que ele fez. Usou o tronco grosso da árvore próxima como base e fincou pedaços de madeira no chão, quebrando as varetas da barraca queimada para usar a corda interna a fim de amarrar os pedaços de pau. Pegou folhas grossas e, ao fim da tarde, já havia coberto totalmente o espaço que passaria a ser sua nova casa.

Selmos passou em sua caminhada diária com seu facão e seu traje típico e avistou o homem descansando ao lado do abrigo:

– Mais calmo, filho? – perguntou o idoso.

– Cara, não sei quem é você e nem o que você faz da vida. Eu não tenho família. Moro sozinho e me sustentava trabalhando em um mercado. Acabei de ser demitido e não tenho ideia do que vai acontecer comigo. Vim pra cá acampar, pensar na vida e você vem foder a minha paz. Qual é a sua? – replicou, gesticulando bastante.

– Só quero te ajudar – disse Selmos, para continuar – Quando sua barraca queimou, você viu seu planejamento ir por água abaixo. Ficou sem proteção e acabou nervoso. Mas você percebeu que não poderia ficar de braços cruzados. Precisava de um novo plano. Pensou, se levantou, botou em prática e agora está aí, com um novo abrigo, mais forte e mais experiente. Leve isso pra vida e que se foda o mercado que te demitiu!

Como de costume, Selmos seguiu andando. Alenkor ficou refletindo na barraca improvisada e aguardando o retorno do idoso:

– Me esperando até agora? – perguntou o velho.

– Quando não te esperei, você botou fogo na minha barraca, né – respondeu Alenkor, arrancando nova risada de Selmos.

– Perfeito! Aprendeu mais uma lição: ficar sempre atento. Agora beba isso e vamos comemorar! – exclamou, retirando uma garrafinha metálica do bolso e oferecendo ao explorador.

Alenkor olhou nos olhos de Selmos, avistou a garrafa, abriu um leve sorriso e recusou:

– Outro de seus joguinhos? É claro que eu não vou beber um troço que não sei o que é – disse.

– Então eu bebo! – falou Selmos, dando três goles na cachaça – Fique sempre atento, mas cuidado para não ficar paranóico! A atenção reforça o homem. A paranóia o deixa ainda mais vulnerável – emendou.

Após mais uma noite de sono e reflexão, Alenkor acordou com pouca água potável e alimentação escassa. Improvisou uma vara usando um pedaço de seu fio-dental para unir um graveto a um gancho esculpido por ele em madeira, onde colocou uma minhoca cavada na margem do rio. Lançou o material na água e aguardou em um silêncio que só foi interrompido pela comemoração da pescada.

As lenhas recolhidas anteriormente foram misturadas a madeiras mais secas para facilitar a condução do fogo, iniciado por um palito de fósforo. Alenkor limpou o peixe, o assou e o comeu. Em seguida, decidiu que era hora de se despedir do local e começar a se organizar para buscar o caminho de volta. Até que uma forte chuva estragou os planos.

Esperto, deixou as garrafas captando água enquanto se refugiava dentro do abrigo. A natureza não deu trégua ao longo do dia. Mas isso não impediu uma nova visita de Selmos:

– Se refrescando? – debochou o velho, desta vez coberto por uma capa de chuva de plástico.

– Eu ia embora hoje, mas não deu – disse o explorador.

– Por que não? Desistiu por causa de uma chuva? Fala sério!

– Você acha que eu deveria ter ido mesmo assim?

– Seria muito perigoso – respondeu Selmos.

– Então acertei em ficar? – questionou Alenkor.

– Foi falta de foco.

– Porra! Se eu fosse, estaria errado! Se eu fiquei, estou errado. O que eu deveria fazer então?

– Você fez o que deveria: tomou uma decisão. Uma decisão sempre tem pontos positivos e negativos. Cabe a você avaliar. Não a mim.

Já decidido a sair dali e aproveitando o papo, Alenkor resolve pedir auxílio ao velho:

– Você não pode me ajudar a sair daqui? – indaga.

– Não. Você está aí por escolha sua. Aguente as consequências! – falou Selmos, indo embora e ouvindo novos xingamentos do explorador.

Algumas horas depois, o idoso retorna, invade a barraca e estende a mão:

– Vamos! – ordena.

– Porra! Você acabou de dizer que não iria me ajudar. Mudou de ideia? – pergunta Alenkor.

– Não. Eu só te ensinei a não esperar ajuda de ninguém.

– E por que voltou?

– Pra te ensinar que a ajuda vem quando a gente menos espera.

Selmos desembrulhou uma outra capa de chuva que guardara em seu bolso traseiro e a entregou a Alenkor, que juntou o que sobrou de suas coisas e foi andando. Mesmo sem saber aonde o velho misterioso o levaria, estava tomada a decisão de não ficar mais parado. Era hora de deixar de refletir para agir:

– E a cachaça de ontem? – questionou no caminho.

Selmos abriu um sorriso, levantou as sobrancelhas e respondeu de imediato:

– Eu sabia que você ia pedir e tomei tudo. Nunca subestime a experiência de um velho! Menos ainda a sede que ele tem!


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Renaldo Souza

Um maluco de estrada que gosta de dar uma caminhada. Amante da natureza, dos churrascos e da cevada. Se Noé fez a arca, eu fiz a Barca. A Ideia, a gente arruma...

2 Comments:

  1. Wildson Leal Antas

    Muito bom !!!!!

  2. Excelente, dá pra refletir bastante com esse conto.

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