O renascimento de Ximena Suarez

Nove meses. Esse é o período que uma mulher leva para dar à luz uma nova vida. Nessa terça-feira (12/09), Ximena Suarez completa 29 anos de idade. Porém, nove meses depois da maior tragédia aérea da história do esporte, a boliviana renasce para seguir a vida.

Em entrevista exclusiva para a Barca da Ideia, Ximena dá detalhes do acidente com a delegação da Chapecoense, garante querer voltar a ser comissária de bordo e crava que a sua comemoração de aniversário mudou de data. Agora, só em 28 de novembro. Como se não bastasse, ela ainda dá forças a quem tem medo de andar de avião.

Ximena observando o local do acidente (Foto extraída de arquivo pessoal de Ximena Suarez)

A queda do avião

Copa Sul-americana. Final. Seria a partida mais importante da história da Chapecoense. Por solidariedade do Atlético Nacional, o time brasileiro até foi campeão. Mas não houve jogo. O avião que transportava o elenco catarinense caiu a caminho da Colômbia.

“Foi um golpe surpresa. O comandante não emitiu qualquer aviso para nós. Simplesmente, as luzes se apagaram e, dois segundos depois, veio o impacto”, diz Ximena, que já acumulava sete anos de experiência como aeromoça.

A consequência de tal impacto fez 71 pessoas morrerem. Dentre os seis sobreviventes, porém, estava a boliviana, que ficou consciente durante todo o período entre a queda do avião e a chegada da equipe de socorro.

“Me lembro de tudo. Logo após a queda, eram muitos gritos. Comecei a rezar e a pensar na minha família para me acalmar. Depois, tentei acalmar os que gritavam. Não sabia quem eram, mas sentia que estavam longe. Infelizmente, eu estava muito ferida para me levantar”, lembra Ximena, dizendo que a equipe de resgate logo chegou e tratou de mantê-la acordada o tempo todo.

A recuperação

Foram 21 dias no hospital. O seguro pagou a internação e tratamentos com fisioterapeuta, dentista, psicólogo e psiquiatra. Mas só até maio. Nos últimos quatro meses, Ximena está arcando com dinheiro do próprio bolso. Seis cirurgias precisaram ser feitas: uma no braço, uma no nariz, duas no pé e duas na boca.

Dormir era outro tormento. Uma luxação na coluna obrigava Ximena a usar um colete. Além disso, os pesadelos eram fortes. Ela sempre acordava achando que havia alguém ao seu lado. No entanto, aos poucos os problemas vão ficando para trás.

“Fiz um tratamento na Colômbia e, desde então, não uso mais pílulas para dormir. Até tem dias que me levanto à meia-noite, mas os pesadelos têm melhorado muito. Muitíssimo, aliás. O colete para a coluna também já não uso mais, graças a Deus”, diz ela.

Ximena após recuperação (Foto extraída de arquivo pessoal de Ximena Suarez)

Relatório de autoridades colombianas apontou a falta de combustível como uma das causas do acidente. O voo era operado pela Lamia, onde Ximena trabalhava havia três anos.

“Não recebi nada de indenização. Nada mesmo. Nem um peso sequer. O processo está lento, pois não conseguimos achar ninguém para responder pela Lamia”, lamenta ela.

Uma prima da comissária, com o consentimento dela, chegou a abrir uma campanha para receber doações. O procedimento, porém, foi encerrado. Isso porque, logo que reuniu condições, Ximena fez questão de levantar a cabeça e voltar a trabalhar. Mesmo que em outra área.

“Estou fazendo desfiles, trabalhando como modelo. Colocar saltos ainda me doi, mas preciso seguir adiante”, conta ela, que também está escrevendo um livro. “O título é surpresa”, diz, em tom simpático.

Ximena em trabalho de modelo (Foto extraída de arquivo pessoal de Ximena Suarez)

As próximas viagens

Ximena adora ir ao cinema e mergulhar na piscina. Apaixonada por viagens, se diz encantada por praias, mas gosta também de conhecer montanhas e novas culturas.

“O lugar mais lindo que já fui é Cartagena, na Colômbia. Meu sonho é conhecer a França. E Chapecó, claro! Já estive no Brasil. Conheço Natal, Rio e São Paulo. Mas preciso ir em Chapecó”, conta ela sobre a cidade da Chapecoense, time que ganhou um espaço especial no seu coração de torcedora do Blooming.

Ximena com camisa autografada por jogadores da Chapecoense (Foto extraída de arquivo pessoal de Ximena Suarez)

Atualmente, Ximena mora em Santa Cruz de la Sierra, Bolívia, com os pais, o irmão e seus dois filhos: Thiago e Gabriel, de 7 e 3 anos, respectivamente.

“Mesmo quando viram a queda do avião, meus pais sempre tiveram certeza de que eu estava viva. Eles nunca pensaram o pior”, garante. “Foi muito difícil retomar a vida, voltar a ter uma vida normal. Sinto muita falta dos que se foram. Mas a minha família me apoia 100% em tudo”, completa ela, que mantém contato com os demais sobreviventes da tragédia.

Se o avião assusta? O que a assusta é não voar. Um dos objetivos de Ximena é voltar a trabalhar como comissária.

“Todos vamos ter um mesmo fim. Ninguém sabe quando e nem onde. Até dormindo, você pode morrer. Não tenho porque ter medo de um avião”, conta ela, que também pretende se formar em engenharia de controle de processos.

Aos muitos trilheiros e viajantes que acompanham a Barca da Ideia e muitas vezes se veem solitários e passando por dificuldades, Ximena deixa uma mensagem:

“Nunca estamos sozinhos. Deus é fiel e sempre está conosco, nos dando paz e tranquilidade sempre que nos sentimos mal”, diz, agradecendo a Deus, a sua família e a todos que, mesmo sem conhecê-la pessoalmente, oraram e continuam orando por ela.

Ximena fazendo divulgação (Foto extraída de arquivo pessoal de Ximena Suarez)


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Renaldo Souza

Um maluco de estrada que gosta de dar uma caminhada. Amante da natureza, dos churrascos e da cevada. Se Noé fez a arca, eu fiz a Barca. A Ideia, a gente arruma...

Um Comentário:

  1. Tu é foda demais, irmão. Muito boa a pauta, oportuníssima! Vou compartilhar com jornalistas que conheço.

    Uma vez vampiro, sempre vampiro. 😍
    Saudações Botafoguenses.

    Um fraterno abraço,
    Daniel Israel.

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